Justificativa/ Defesa do enredo:
Exaltar o patrimônio histórico-cultural brasileiro é uma das preocupações da São Clemente desde o seu primeiro desfile. E, visando aliar o carnaval virtual com a nossa rica literatura, a escola prepara para 2010 um desfile em louvor ao primeiro grande poeta do país, Gregório de Matos. A São Clemente mesclará momentos significativos da vida de Gregório com a sua produção poética. Por todo o desfile, em alas e carros, o público se deliciará com os poemas do “Boca do Inferno” personificados na linguagem carnavalesca da São Clemente.
Sinopse do enredo:
Poucos são aqueles que nascem sob o brilho das estrelas, tendo uma vida iluminada por glórias e conquistas. Desses, menos ainda são aqueles que gravam seu nome na história para sempre, sendo revividos a cada vez que suas obras são apreciadas. Podemos dizer que Gregório de Matos e Guerra, um baiano filho de português com uma brasileira, se insere no rol desses grandes nomes que meteoricamente passam pela face da Terra e aqui deixam uma marca profunda, uma obra digna de ser pensada e discutida. Mas o que dizer do mesmo Gregório que foi abominado por muitos do seu tempo? Aquele mesmo de vida desregrada, amante das negras e mulatas, da viola e do lundu, da vadiagem e das tavernas? Tão paradoxo quanto seus poemas foi este artista...
A São Clemente começa a percorrer a vida e a obra do poeta baiano a partir de sua viagem para a Europa. Aos 19 anos, Gregório deixa o mundo rural e pouco desenvolvido da colônia rumo à Universidade de Coimbra, a fim de se graduar e lá tornar-se doutor. Mais relevante do que isso para nós é o fato de ter sido neste período que o poeta entrou em contato com as obras dos grandes cânones da literatura universal, tais como Dante, Petrarca, Boccaccio, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões e ainda com os poetas espanhóis contemporâneos Gôngora e Quevedo. Estes dois últimos em especial tiveram considerável influência na formação de Gregório; este respirava o ar pesado do barroco que pairava sobre a Europa naquele tempo, cujo país símbolo do movimento era a Espanha. O Barroco imprimira vida nova, sangue novo, luzes e cores novas, assim como uma mobilidade inteiramente inédita aos elementos poéticos; a poesia perdia no sentido humano e passava a vestir-se com manto cintilante de pedraria, a disfarçar a pobreza do conteúdo. Muito se observa da influência barroca na poética do autor, carregada de exageros e tons pesados, além dos famosos paradoxos. Formado, Gregório de Matos deixa Coimbra e transfere-se para Lisboa a fim de estabelecer-se como advogado.
Tudo ia bem, sua carreira de advogado prosperava perfeitamente, até que um fato mudaria seu destino. El-Rei Dom Pedro II convoca os trabalhos do então advogado para atender a seus caprichos pessoais; o soberano planejava arruinar o então governador do Rio de Janeiro Salvador Sorreia de Sá e Benevides, homem íntegro e honesto. Dom Pedro II planejava subornar um homem da lei astuto o suficiente para forjar um processo jurídico contra o referido governador, e o nome de Gregório foi o primeiro a ser pensado. Requisitado para a tarefa, o poeta baiano a recusou e isso lhe acarretou total desprestígio na Corte e na sociedade.
Viver na Metrópole tornou-se algo insuportável e Gregório viu-se obrigado a retornar à pátria. No ano de 1679, contando 50 anos de idade, bem-posto, elegante e vivaz, chega ao Brasil acompanhado pelo futuro Primeiro-arcebispo da Bahia D. Gaspar Barata de Mendonça e pelo também poeta Tomás Pinto Brandão. Logo é investido nos cargos de Vigário-geral e tesoureiro-mor da Sé. Mas, o que aparentava ser uma vida mais tranquila do que em Lisboa logo iria se mostrar um verdadeiro “inferno”: o luxo, a ostentação e a arrogância dos senhores de engenho, dos ricos e negociantes, dos potentados do oficialismo eram mais evidentes do que quando o poeta, na juventude, partira para a metrópole. A Bahia era, mais que nunca, “um misto incongruente de civilização e barbária; de luxo e desconforto”. A vida baiana girava em torno do trinômio religião, sexualidade e ganância.
Pode-se dizer também que os hábitos e atitudes de Gregório nada o ajudaram a ser aceito naquele meio tacanho e mesquinho. O fato de recusar-se a vestir a batina, por exemplo, mesmo sendo vigário-geral, não era visto com bons olhos. Tudo isso veio a agravar-se com a perda de seus protetores na Bahia. Mas sempre utilizando-se de sua inteligência e tom satírico, Gregório se vingava poeticamente; ninguém escapava aos arremessos da lira agressiva do poeta: brancos cheios de si, mulatos metidos a sebo, negros disfarçados e bajuladores, burocratas venais, magnatas usuários, todos de cambulhada se viam envolvidos nos versos cheios de graça venenosa.
No ano de 1684 surge um rasgo romântico em sua existência, um amor violento que supera até mesmo as precaríssimas condições materiais do poeta. A mulher amada é uma linda viúva, de boa família e educação, contudo também desprovida de qualquer fortuna. Chamava-se Maria de Povos e não resistiu ao assédio do advogado seresteiro. Muito sofreu Maria com os desmandos e a dissipação da vida do marido. Gregório depois de certo tempo de casado recaiu na mesma existência boêmia, com aventuras simultâneas com tudo quanto era preta ou mulata. Um insaciável sem escrúpulos. Tiveram um filho, Gonçalo de Matos, que não viveu muito. Não suportando os excessos do marido, Maria de Povos saiu de casa por duas vezes, sendo a 2ª vez por definitivo. O fim do casamento marca o período de profunda decadência na vida do poeta. Teve ainda outros amores, como D. Ângela e D. Brites, “a formosa”, ambas cortejadas em poemas de puro lirismo amoroso.
Numa conspiração política, os então governadores da Bahia conseguem prender Gregório, deportando-o para Angola em exílio. Pouco se sabe de sua estada na África; contudo, alguns poemas revelam certa tristeza, solidão e incômodo do poeta com aquele meio selvagem e ignorante. Depois de certo tempo, o poeta conquista a confiança do governador angolano D. Pedro Jaques de Magalhães, após participar de conflitos internos e este acaba por conseguir que ele regresse ao Brasil, sob a condição de que não mais comporia. Gregório então regressa ao Brasil, indo residir em Pernambuco. Em Recife goza de uma vida melhor, sendo bem acolhido e apesar de romper com o acordo de não poetar, era admirado por sua inteligência.
Atingindo uma certa idade e arrependido da vida que levara, o poeta faz uso de seus poemas para tentar aliciar a boa vontade divina a favor de sua atemorizada alma; atormentado pelo pavor da morte e do castigo eterno, o seu maior anseio é a paz de espírito, a certeza da salvação. O período final de sua vida é marcado pela redenção. Perturbado pelo medo da perdição eterna que emerge no âmago de sua formação religiosa e da atmosfera da época, o poeta se volta para Deus em tom de penitente compreensão do verdadeiro sentido da vida humana. O Doutor Gregório de Matos e Guerra falece em 1696, aos 63 anos de idade.
Penitente, humilde, arrependido e aplicando sua ardilosa argumentação de velho advogado na tarefa de convencer o Todo Poderoso das vantagens de esquecer seus escandalosos pecados a fim de conceder-lhe o reino do céu, Gregório de Matos expirou e foi ajustar sua complicadas contas com a Eternidade, já que com seus versos garantida estava a sua permanência nas páginas iniciais da literatura brasileira.
Mas, por que falar tanto da aparente vida pessoal deste poeta, em vez de ressaltar a sua obra? O motivo é simples de se entender: Impossível seria dissociar a vida agitada de Gregório de toda a sua produção poética. Pois foi sua vida a sua musa inspiradora de cada verso que compôs.
A São Clemente almeja em seu desfile festejar toda a irreverência e talento deste que é considerado o “marco literário de brasilidade”, pioneiro no abrasileiramento da Língua Portuguesa aqui usada e ainda a primeira voz reacionária ao “mito do ufanismo”, tendência à exaltação lírica da terra. Não é a toa que seus poemas são presentes até hoje e sua obra já tenha sido revisitada por inúmeros outros escritores brasileiros. Provando que seus poemas são eternos e que a literatura brasileira dá samba, a amarela-e-preta capixaba prepara uma grande apresentação em homenagem ao nosso querido poeta!
Agora, ninguém melhor para encerrar do que o próprio Gregório, num poema em que poeticamente traduz o que foi sua vida:
Aos vícios
Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
canto segunda vez na mesma lira
o mesmo assunto em pletro diferente.
[...]
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta o que é Pegaso.
De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?!
Sempre se há de sentir, o que se fala.
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um e outro desconcerto,
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço e repousado:
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receosos?
Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos preversos,
Só nos distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chiton, e haja saúde.
Thiago Laurentino
Carnavalesco
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